| Sobre o autodidatismo em educação: "Você se submeteria ao bisturi de um cirurgião que se auto-ensinou e se auto-avaliou?" artigo de Solange Amorim e Amato | |
| "Temos que diferenciar os grandes pensadores como Piaget dos "gurus" que algumas vezes utilizam o nome de outros, como o de Piaget, para justificar suas propostas de reformulação curricular que mais atrapalham o aprendizado do que ajudam" Solange Amorim e Amato é professora adjunta da Universidade de Brasília (UnB). Artigo enviado pela autora ao "JC e-mail": Um dos objetivos do curso de Pedagogia é preparar o futuro professor de séries iniciais (1ª. à 5ª. série) do Ensino Fundamental. Recentemente, o curso tem sido criticado por ter poucas disciplinas que abordam o que Lee Shulman denominou "conhecimento pedagógico do conteúdo a ser ensinado" [Shulman, L. S. (1986). Those who understand: Knowledge growth in teaching, Educational Researcher, 15(2), 4-14.]. Nas disciplinas que ministro sobre didática da matemática, faço um forte detalhamento sobre como ensinar conteúdos escolares específicos. Contudo, na área de educação, professores que fazem esse detalhamento, são rotulados de "conteudistas" e criticados por estarem fornecendo "receitas de bolo". Não tenho cedido às pressões, pois acho que "as receitas" são realmente necessárias para muitos profissionais. Em educação gosto das analogias com a área médica, mas ainda prefiro as da gastronomia. Segundo Ian Dey, "apesar de os cozinheiros experientes poderem eventualmente dispensar o livro de receitas, este permanece um recurso pedagógico útil para os cozinheiros inexperientes" [Dey, I. (1995). Qualitative Data Analysis, London: Routledge]. Kathleen Hart acredita que o aprendizado de matemática nas escolas se beneficia muito da confiança que o professor tem em sua capacidade de ensinar e comenta: "Se você estiver sendo alimentado por um cozinheiro novato, talvez seja melhor se contentar com a comida simples [o feijão com arroz, no caso brasileiro] que ele saiba fazer todos os dias do que ter que passar fome até o dia em que ele possa produzir um único jantar sofisticado" [Hart, K. M. (1993). Confidence in Success, Proceedings of the 17th International Conference for the Psychology of Mathematics Education, I17-I31, Tsukuba, Japan.]. De fato, o que alguns educadores pejorativamente chamam de receitas são procedimentos firmemente estabelecidos em uma profissão para lidar com problemas específicos. Os procedimentos apresentados nos cursos de medicina têm de ser muito bem testados e aprovados. Até em artes as receitas são utilizadas. Se um pianista famoso pode utilizar uma partitura para tocar uma sinfonia de Beethoven, por que o professor tem que redescobrir a roda? Isso seria diminuir o trabalho do professor à condição de não profissional. Contudo, é importante que o profissional entenda os procedimentos antes de automatizá-los. Isto é, somente decorar um procedimento não basta. Se há um entendimento profundo sobre a natureza das etapas e materiais utilizados num procedimento, o profissional pode mais facilmente adaptá-lo para enfrentar situações novas. Professores, médicos e outros profissionais precisam ser criativos, mas é importante conhecer os procedimentos desenvolvidos e testados no passado para sua escolha e adaptação na prática. Com o devido tempo e experiência, esses profissionais ficarão mais confiantes e poderão combinar o conhecimento adquirido durante a utilização de procedimentos básicos com estratégias mais sofisticadas, bem como desenvolver por si próprios procedimentos mais avançados. Assim é feito em pesquisa em muitas áreas. Apesar de ser da área de educação, tenho dificuldades em aceitar algumas idéias nessa área. Antes tentava levar com paciência e me calava, mas como disse Rubem Alves "como estou velho, ganhei coragem, vou dizer àquilo sobre o que me calei". Em educação temos que diferenciar os grandes pensadores como Piaget dos "gurus" que algumas vezes utilizam o nome de outros, como o de Piaget, para justificar suas propostas de reformulação curricular que mais atrapalham o aprendizado dos alunos nas escolas do que ajudam. Dois outros grandes pensadores citados na área de educação também tiveram suas idéias deturpadas por alguns educadores, entretanto puderam expressar suas verdadeiras intenções. Um deles foi Paulo Freire, que em seu último livro [Freire. P. (1998). Professora Sim, Tia, Não: Cartas a Quem Ousa Ensinar, São Paulo: Olho d'Água], começou um parágrafo com as palavras "Jamais disse ou sequer sugeri que as crianças das classes populares não devessem aprender o chamado 'padrão culto'...". Para um Recifense (como eu) escrever essas palavras é porque estava muito chateado, para não dizer "aperriado", com o que fizeram em nome de suas idéias. Um outro autor que também teve a oportunidade de esclarecer suas idéias foi o psicólogo Howard Gardner. Num artigo [Gardner, H. and Boix-Mansilla, V. (1999). Teaching for Understanding in the Disciplines - and Beyond, in J. Leach and B. Moon (eds.), Learners and Pedagogy, London: Paul Chapman/The Open University.], Gardner e Boix-Mansilla deixam bem claro que são contrários a um trabalho puramente interdisciplinar antes de os alunos desenvolverem dois tipos básicos de disciplina. Uma delas diz respeito às disciplinas escolares convencionais: "Nós consideramos que as disciplinas são indispensáveis em qualquer educação de qualidade e pedimos que as pessoas não joguem fora o bebê junto com a água do banho". A outra é a disciplina de estudo. Para aprender bem, o aluno precisa sentar na cadeira, fazer o dever de casa e estudar! Aparentemente Gardner ficou com receio dos artigos que relacionavam o "ensino baseado em projetos interdisciplinares" com suas idéias sobre a existência de "Múltiplas Inteligências". O problema não está diretamente atrelado a esses projetos. Se forem incluídos como mais um componente dos programas escolares, podem ser bem interessantes. O problema surge quando alguns educadores acoplam a inclusão de projetos a uma proposta de redução nos conteúdos das disciplinas escolares convencionais como português, matemática, ciências etc. As comparações entre a área de educação e a área médica são odiadas por alguns educadores no mundo todo. Eu as utilizo freqüentemente em sala de aula para convencer meus alunos do curso de Pedagogia a se conscientizarem da necessidade de participarem ativamente das aulas e de serem avaliados por testes que aplico durante as duas disciplinas que ministro sobre didática de matemática todos os semestres. O educador Alan Smithers utilizou uma analogia que eu gosto muito nesses momentos: "Levante a mão todos aqueles que se submeteriam ao bisturi de um cirurgião que se auto-ensinou e se auto-avaliou." [Smithers, A. (2002). Medical Training is Heading for Disaster, The independent, 19 September]. Por fim, gostaria de mencionar algo ainda mais alarmante publicado no mesmo artigo de Smithers. Esse autor alerta que idéias que não funcionaram em educação estão sendo transferidas para os cursos de medicina: "o ensino fundamentado em problemas". Os conteúdos de disciplinas básicas, como a de Anatomia, estariam sendo reduzidos em prol de um aprendizado em que os alunos buscam e captam informações (os conteúdos) à medida que se tornem necessárias ao tratamento dos pacientes. Ele menciona as reclamações de um dos membros da Academia Real de Cirurgiões da Inglaterra sobre o enfraquecimento dos cursos de medicina. No Brasil, já há cursos de medicina baseados nessa concepção de ensino, e publicações em que são defendidas as "alternativas que estimulem o autodidatismo dos estudantes e permitam aproveitar de maneira mais construtiva o tempo de aula" [Passos, R. M. e Hermes-Lima, M. (2004). Mestre, Deixe os Alunos em Paz!, Ciência Hoje, Vol. 35, no. 206]. | |
Hum... sabe aquelas gavetas e caixas onde a gente guarda as coisas que acha interessantes? Pois bem... resolvi fazer uma "gaveta virtual" onde guardo algumas fotos, receitas, artigos interessantes, receitas de tricô, crochê, macramê... seja lá o que for!
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Ainda mais sobre a falta da prática de ensino e suas técnicas
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